sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Os dias eram inteiros II

Hoje foi o grande vaso que se abriu quase ao meio. A Maria ainda cá está. Percorri as lojas a tentar encontrar o vaso, antes tivesse ficado em casa. Sinto um desconforto crescente com este país, nunca encontro o que quero. Ontem fiquei a pensar no rio. Só sou romantico no rio e ainda por cima enjoo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Os dias eram inteiros I

As papoilas estavam sempre desmaiadas. Sei que era do fumo. Mas, contra a parede, mesmo desmaiadas, mesmo com a cor gasta, elas olhavam-me. A parede lívida acrescentava algo às papoilas. Desde os meus cinco anos que me lembro das papoilas ali. Sempre desmaiadas. Hoje têm em cima o fumo do meu avô, o do meu pai e agora o meu. Lá está o mesmo rasgão do triciclo na folha mais rente ao chão, e a mancha de sangue, vermelha sobre o vermelho, daquele dia. A luz foi mudando ao longo dos anos. O tom amarelo da lâmpada velha da minha infância fundiu-se. Lembro-me do candeeiro de pé que o meu pai comprou no dia em que passou a trabalhar nos “Eléctricos”. Preparo a última ceia da Maria. Ela ainda não me disse mas sei que amanhã se vai embora. Os últimos meses correram mal. Nunca se habituou a esta casa. Convenço-me disto porque não sei o que quero esconder. Ponho a mesa, um copo para a água também, e vou esperar um pouco mais ao lado do vinho. Ela demora sempre uma hora a mais à segunda-feira.

A luz já é branca desde que fizemos as obras, mas nem por isso a cor das papoilas mudou do vermelho fumado dos anos. São uma desconversa recorrente as papoilas, como tudo o resto na casa.